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MOVIMENTO - MUSICA - MOVIMENTO



O movimento na música é essencialmente natural. A relação corpo-som é inerente de um a outro, movimento e música são co-dependentes.
Movimentos precedem a música, são parte de sua execução e depois reaparecem de variadas maneiras. Tratemos então dessa dinâmica movimento-música-movimento ao refletir sobre como isso acontece.
O movimento que gera música, de alguma maneira vai estar nela e por ela irá afetar e poder incitar novos movimentos.
Os gestos que precedem a música têm uma intenção e carregam em si a condição do indivíduo, do corpo que os realiza. “O compositor não fala dos sons em si, sim através deles, lhes dando forma, nessas construções sonoras, a sua emoção, seu pensamento e sua subjetividade”.
[1] A música expressa pela sua organização, sentimentos, intentos e principalmente subjetividade.
O músico deposita em sua obra sua “carga” pessoal compondo gestualmente a vida através da sonoridade que cria.
Podemos citar o ato de tocar um instrumento. Tocar envolve a corporalidade, o instrumento aparecerá como uma extensão do corpo humano na interação entre o corpo e a morfologia do instrumento. Temos um corpo que faz um gesto que gera um som. A condição desse corpo influirá nessa composição sonora por meio dos gestos que realiza, impregnando-os dessa carga em sua manifestação.
O caminho de quem cria música: corpo – gesto – som (música). A música do gesto, o gesto na música.
Podemos dizer que a música tem movimento. Ela “veicula significados e beleza tanto com referência a si própria quanto com referência ao universo extra-musical. Sua significação é tanto referencial quanto não referencial”.
[2]
Nos voltando mais para o universo extra-musical que a permeia, admitimos que é organizada pelo homem e nela sua expressividade pessoal se movimenta pelas tensões/relaxamentos, som/silêncio, contradições que completam e ajudam a dar-lhe significado.

Uma das características essenciais da atividade artística é esta possibilidade de plasmar,... dar forma e objetivar a subjetividade, as imagens poéticas se convertem no lugar de encontro entre o interno e o externo, os estímulos e a interioridade, a que dão forma.
[3]


O mesmo jogo de tensão e repouso que acontece na música acontece também no gesto. O movimento que se elabora depois ou durante uma audição musical acontece na variação de momentos de tensão e relaxamento. A expressão que o músico tem pelo som o indivíduo ao dançar terá em si, em sua dança
[4], que “se encontra no próprio ser unindo criação e criador”.[5] Nos encontramos então no terceiro momento da nossa dinâmica movimento-música-movimento.
A intenção na música contagiará o gesto. Num primeiro momento, como uma reação podendo depois se organizar na expressão com o todo de seu corpo através dos movimentos, que são passivos de ser mais conscientes ou não. A subjetividade imbuída na música entrará em contato com a subjetividade do indivíduo a dançar.
A reação do corpo a dado estímulo denota uma combinação desse estímulo musical, de sua condição própria (o corpo com suas qualidades), de espaço e de tempo.
[6] O movimento surge como improviso reunindo essas relações procurando por novas significações, por dar forma a elas.
O caminho aqui: som (música) – corpo – gesto.
Posteriormente (no tópico música e movimento motor) cuidaremos para elaborar melhor este terceiro momento. Ficando no presente com a corporalidade na relação movimento-música-movimento.
O corpo é agente que reage, que movimenta e que faz movimentar. CORPO – GESTO – SOM (música) – CORPO – GESTO eis o movimento macro de inter-relação nessa dinâmica. Toda essa relação embasa a possibilidade vigente de um resgate consciente de sua naturalidade, merece consideração e torna plausível tal presença, visto o estado de uma super-requisição do corpo no presente momento que nos distancia cada vez mais do que é natural.
[1] KALMAR, 2005, p. 91
[2] BRUSCIA, 2000, p. 112
[3] KALMAR, 2005, p. 42
[4] O termo dança aqui utilizado se refere à movimentação livre e subjetiva do indivíduo sem apego a técnicas ou padrões pré-estabelecidos. Uma expressão onde o ser sintetiza sua condição por meio de movimentos naturais, que refletem a presença do interno e do externo.
[5] KALMAR, 2005, p. 27
[6] KALMAR, 2005, p. 37
Sob o impulso da alegria o homem gritou. O grito se concretizou em palavras, mas estas não foram, todavia suficientes, e o homem modulou as palavras em canto, logo, indiferentemente foi movendo-se
sobre o canto, até que de repente
traduziu no baile a alegria da vida.



(Confúcio)